Comunicado APV

O jornal O Público, publicou no dia 2 de fevereiro de 2018, com considerável destaque – manchete – uma notícia cujo teor, por alarmista e injustificado, não pode, em abono da verdade e pelos superiores interesses de saúde pública que estão em causa deixar de ter uma resposta efetiva.

Em primeiro lugar, a notícia da autoria da jornalista Teresa Serafim, sob o título: “Os cigarros eletrónicos também danificam o ADN e têm sabores tóxicos – Duas equipas de cientistas testaram os efeitos dos cigarros electrónicos: enquanto uma verificou que contribuem para o cancro dos pulmões e da bexiga, a outra concluiu que a baunilha e a canela são dos sabores mais tóxicos.” mais não é do que uma adaptação/tradução de uma anterior publicação não nacional1, que, curiosamente, à data da publicação na sua versão portuguesa pelo jornal O Público, já havia sido contraditado cientificamente em comunicado pelo UK Cancer Center Research2, onde se realça, para além da incerteza probatória do estudo4, a importância dos cigarros eletrónicos, como uma das principais formas de combate ao tabagismo.
Mais grave se torna este facto quando também antes da publicação da notícia que ora se discute, foi publicada uma notícia no jornal “Paris Match5, da autoria da jornalista francesa Vanessa Boy-Landry, a qual, sob a epígrafe “a notícia falsa que pode matar”, ao arrepio dos demais órgãos de comunicação social (que se limitaram a traduzir), investigou de forma isenta e imparcial a razão de ciência e os resultados dos estudos que estão na base da notícia portuguesa.

Esta notícia francesa, que podia (e devia) ter tido acolhimento pelo jornal português que mais não seja pelo mero exercício do contraditório, não teve, optando-se assim pela fórmula sensacionalista que cada vez mais é apanágio do nosso jornalismo.

Considerou a jornalista francesa que não estaríamos perante uma verdade científica, mas sim diante de uma pura e simples manipulação.

Realçamos em excerto:

O cigarro eletrónico, capaz de influenciar o DNA? A partir daí para entender que o cigarro eletrónico é mais perigoso que o tabaco, é apenas um passo. “Não estamos na verdade científica, mas na manipulação. Em primeiro lugar, as condições em que o experimento é realizado não são absolutamente representativas da exposição humana. O estudo demostra anomalias celulares expondo ratos a quantidades significativas de nicotina, muito mais do que acontece com um cigarro eletrónico regular, daí extrapola-se esses efeitos dos ratos para os humanos e, finalmente, não se compara o efeito do vaping relativamente ao fumo de tabaco”, reage o professor Bertrand Dautzenberg, pneumologista e prescritor de cigarros eletrónicos para seus pacientes.

“Este estudo não mostra nada sobre os perigos do vaping, não prova que o vaping causa cancro”, disse Peter Hajek, diretor da unidade de pesquisa de dependência de tabaco da Queen Mary University em Londres, ao The Guardian. Para os britânicos, este estudo está em linha com uma longa série de “falsos alarmes que poderiam desencorajar as pessoas a utilizar alternativas ao tabaco, o que sem dúvida seria muito benéfico para elas”. A melhor estimativa atual é que o vaping traduz, na pior das hipóteses, cerca de 5% dos riscos associados ao tabagismo”, acrescentou.

O autor de uma meta-análise sobre os efeitos cancerígenos do vaping, Ed Stevens (Universidade de St. Andrews), reconhece a contribuição deste trabalho sobre “Compreender os mecanismos e danos causados pela nicotina”, seja ela fumada ou inalada (cigarro eletrónico e aerossol), mas lamenta que nenhuma comparação direta tenha sido feita com o fumo do tabaco”. Observa, no entanto, que os investigadores nos EUA citam um estudo que demonstra um ponto “crucial”: quantidades muito pequenas de substâncias químicas encontradas na urina de vapers em comparação com fumadores (97% menos). (…) Estamos inundados com notícias falsas desse tipo.

Por sua vez, Jacques Le Houzec, farmacologista e especialista em tabaco, lembra um estudo semelhante anterior, que “contradiz totalmente” este: “Os ratos foram expostos a um aerossol de nicotina com uma concentração que deu um duplo de nicotinemia observado em fumadores durante 20 horas por dia, 5 dias por semana, durante um período de 2 anos, nenhum aumento na mortalidade, arteriosclerose foi observado nestes ratos em comparação com o grupo controle. Em particular, nenhum tumor pulmonar microscópico ou macroscópico, nem aumento de células endócrinas pulmonares. Em contraste, o peso de ratos expostos à nicotina foi menor do que o dos ratos de controle.

” Se as modificações ao ADN foram similares àquelas que sofrem os fumadores passivos, então mais trabalho é necessário para verificar se o vaping aumenta realmente as taxas de cancro.”.

“No geral, estamos inundados com notícias falsas desse tipo. (…) assemelham-se ao jornal inglês “The Sun” escrevem comunicados de imprensa que contradizem por vezes os próprios estudos que lhe servem de base. Estas notícias sensacionalistas servem apenas para aumentar as suas vendas”, diz o Professor Dautzenberg, antes de concluir:” O resultado é que muitos vão parar de utilizar os cigarros eletrónicos e continuar a fumar. Uma notícia como esta pode matar pessoas. Isto é totalmente contra a saúde pública. O trabalho dos investigadores é salvar vidas, não matar pessoas”.

Destes factos em contradição com a notícia portuguesa surge inevitavelmente uma pergunta: que espécie de jornalismo é aquele que não se informa mas que pretende informar?

Vejamos,

A notícia nacional ao contrário do que se esperaria de um jornal com a credibilidade de O Público, para além de apresentar a duvidosa notícia internacional e o consequente conteúdo científico que lhe está na base, vai mais longe, tece considerações próprias cuja justificação só poderemos acreditar se ter ficado a dever a dificuldades de compreensão da língua inglesa.

A título de exemplo: “Os cientistas quiseram ainda ver os efeitos dos cigarros eletrónicos em culturas de células humanas dos pulmões e da bexiga. Além da nicotina, essas células foram expostas a um outro composto cancerígeno que também se encontra no fumo dos cigarros convencionais – a cetona nitrosamina derivada da nicotina (NNK, na sigla em inglês). Verificou-se então que essas células tiveram uma taxa de mutações genéticas mais elevada do que as células que não foram expostas a essas substâncias, assim como uma transformação carcinogénica mais alta”. Ora, se desde logo deveria ter sido esclarecido que os cigarros eletrónicos para efeitos deste estudo continham nicotina (algo que não é aplicável a todos os cigarros eletrónicos)6 seria elementar esclarecer, ao invés de confundir e baralhar, que não existe nenhum estudo que prove (ou que lhe faça referência) que a “a cetona nitrosamina derivada da nicotina” se encontre presente na utilização de cigarros eletrónicos com nicotina, isto, a não ser que seja propositadamente induzida, tal como aconteceu no mencionado estudo.

Clarificando: ao introduzir um substancia presente nos cigarros convencionais mas não nos cigarros eletrónicos é perfeitamente natural (dir-se-ia óbvio) que nessas células se tenha verificado “uma taxa de mutações genéticas mais elevada do que as células que não foram expostas a essas substâncias”.

O que se pretendeu então com a notícia? Descredibilizar uma das formas mais eficazes de combate aos malefícios do tabaco, este sim um dos principais flagelos de saúde pública no último e no presente século? Alarmar a opinião pública e os utilizadores de cigarros eletrónicos que graças a estes conseguiram deixar de fumar melhorando as suas vidas? Afetar irremediavelmente o setor do vaping e os seus operadores, desde lojistas a fabricantes de produtos nacionais, arrastando dezenas ou centenas de pessoas para o desemprego? Implicitamente conduzir a opinião pública para continuar a fumar ou para outros produtos de tabaco (esses sim que contêm inevitavelmente nicotina e outras substâncias ou produtos potencialmente carcinógenos) titulados pela industria tabaqueira?

Acreditamos que não, e, que por certo, esta notícia apenas e só não obedeceu ao dever objetivo de cuidado jornalístico.

Por assim ser e por nisso acreditarmos, chamamos a nós, a responsabilidade de informar reiterando aquilo que foi, é e continua a ser notícia: a utilização de cigarros eletrónicos é no mínimo 95% menos prejudicial do que o tabaco7. Esta é a posição assumida pela Public Health of England, que considera ausentes no vapor do cigarro eletrónico, ainda que contendo nicotina, os componentes do cigarro convencional que prejudicam a saúde – incluindo carcinógenos – considerando que os principais produtos químicos presentes nos cigarros eletrónicos não foram associados a qualquer risco sério para a saúde, e que, em razão, incentiva a utilização dos cigarros eletrónicos para o combate ao tabagismo8.

Esta posição não poderia ter maior atualidade até porque, ontem, dia 6 de fevereiro de 2018, esta entidade publicou um novo estudo denominado “A new Public Health England (PHE) e-cigarette evidence review, undertaken by leading independent tobacco experts, provides an update on PHE’s 2015 review”9.

Este novo relatório abrange o uso de cigarros eletrónicos entre jovens e adultos, as atitudes do público, o impacto resultante de deixar de fumar, bem como uma importante atualização sobre os riscos para a saúde e o papel da nicotina.

Considerando um universo de 3 milhões de utilizadores de cigarros eletrónicos no Reino Unido, as principais revelações são as seguintes:

  • A utilização de cigarros eletrónicos representa apenas uma pequena fração dos riscos de fumar pelo que transitar completamente do tabaco para o vaping traz benefícios substanciais para a saúde.
  • O uso do cigarro eletrónico está associado às melhores taxas de abandono do tabaco, revelando-se um sucesso durante o último ano a este propósito, sendo responsável por uma queda acentuada nas taxas de tabagismo em Inglaterra.
  • Reforço da posição de que o vaping é pelo menos 95% menos prejudicial que o tabaco apresentando um risco insignificante para os “fumadores passivos”.
  • A uso de cigarros eletrónicos pode contribuir para que, por ano, mais de 20 mil pessoas deixem de fumar, apenas no Reino Unido.
  • É rebatida a preocupação de que os cigarros eletrónicos sejam uma via para que os jovens comecem a fumar (as taxas de tabagismo juvenil no Reino Unido continuam a diminuir, o uso regular é raro e é quase totalmente confinado a quem já fumou antes).
  • Existência de evidências claras e convincentes que justifiquem a disponibilização de cigarros eletrónicos aos utentes do Serviço Nacional de Saúde.

E deixa ainda algumas recomendações:

  • Que os cigarros eletrónicos, ao lado das terapias de reposição de nicotina, estejam disponíveis para venda em lojas hospitalares;
  • O fomento de políticas de vaping em vista a apoiar os fumadores a deixar de fumar;
  • Os serviços antitabágicos e os profissionais de saúde locais devem fornecer suporte comportamental aos fumadores que desejem sair com a ajuda dos cigarros eletrónicos;
  • Refere ainda que o novo Plano de Controle do Tabaco do Governo Britânico inclui o compromisso de “maximizar a disponibilidade de alternativas mais seguras para fumar”, deixando claro a importância dos cigarros eletrónicos para esse efeito;

De forma preocupante este estudo revela que muitos milhares de fumadores acreditam incorretamente que o vaping é tão ou mais prejudicial quanto fumar, isto para além de 90% da população acreditar que a maioria dos danos à saúde associados ao consumo do tabaco advêm da nicotina, o que não é verdade.

Esta preocupação dos especialistas britânicos de que a falta de informação seja um obstáculo à melhoria da saúde pública pela não utilização dos cigarros eletrónicos em detrimento dos produtos de tabaco teve na (des)informada notícia do jornal “O Público” um infeliz exemplo. Principalmente porque desinformou e tinha a obrigação de informar.

Nas palavras do prof. John Newton, diretor na Public Health of England – citado no estudo: “A cada minuto, alguém é internado no hospital por fumar, com cerca de 79 mil mortes apenas em Inglaterra. (…). No entanto, mais de metade dos fumadores acreditam falsamente que o vaping é tão prejudicial quanto fumar ou simplesmente não sabe se é ou deixa de ser. Seria trágico que a possibilidade de milhares de fumadores abandonarem o tabaco com a ajuda de um cigarro eletrónico sejam postas de lado devido a medos falsos quanto à sua segurança.”

Assim, facilmente se concluí que a peça da Sra. jornalista Teresa Serafim ao invés de informar, desinforma, ao invés de esclarecer, confunde, ao invés de contribuir para um esclarecimento cabal dos benefícios do vaping em detrimento do tabaco, acicata o alarme social afastando a população fumadora de algo que poderá comprovadamente melhorar as suas vidas.

Dúvidas não restam que esta notícia constitui um claro retrocesso na difusão e implementação do vaping, e com isto, uma clara afetação dos princípios de saúde pública que lhe estão por base. Não estamos, pois, a falar de um qualquer acontecimento que merece uma normal cobertura jornalística, estamos, outrossim, a falar em saúde pública, da saúde dos portugueses.

Exige-se assim mais responsabilidade. Exige-se mais e melhor informação, uma informação correta e elucidativa, uma informação capaz de, com coragem e de forma livre, esclarecer o cidadão de algo muito simples: o vaping é, infinita e comprovadamente, menos prejudicial do que o tabaco e o melhor e mais eficaz método para deixar de fumar.

Lisboa, 7 de fevereiro de 2018

A Direção,
APV – Associação Portuguesa de Vaping

 

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https://www.theguardian.com/science/2018/jan/29/vaping-may-raise-cancer-and-heart-disease-risk-study-suggests
http://scienceblog.cancerresearchuk.org/2018/01/30/headlines-saying-vaping-might-cause-cancer-are-wildly-misleading/
Para o qual remetemos a resposta às considerações científicas apresentadas;
O próprio estudo refere explicitamente: “although further studies are required to substantiate this proposal”;
http://www.parismatch.com/Actu/Sante/La-cigarette-electronique-plus-nocive-qu-il-n-y-parait-la-fake-news-qui-peut-tuer-1449653;
Tanto assim é que segundo a legislação em vigor apenas é considerado produto de tabaco os cigarros eletrónios, líquidos ou recargas que contenham nicotina (cf. alíneas k), s) e ii) do art.º 2.º e n.º 3 do art.º 4.º da Lei n.º 37/2007, de 14 de agosto (na redação que lhe é dada pela Lei n.º 63/2017, de 3 de agosto).
Public Health of England com base num estudo realizado por especialistas do King’s Collegge of London, Queen’s Mary University e o UKTAS (UK Center for Tobacco and Alcohol Studies) – in https://www.gov.uk/government/news/e-cigarettes-around-95-less-harmful-than-tobacco-estimates-landmark-review;
Também, entre outros, a MHRA (Medicines & Healthcare products Regulatory Agency) e RCP (Réunion de Concertation Pluridisciplinaire);
https://www.gov.uk/government/news/phe-publishes-independent-expert-e-cigarettes-evidence-review